A aposta

A notícia de que analistas do RBS (Royal Bank of Scotland) temem nova crise mundial em 2016, acendeu uma polêmica. Andrew Roberts, um dos analistas do RBS, aconselhou seus clientes a se desfazerem de investimentos, renunciando a ganhos de capital para preservar o próprio capital. Quem não gostou da história foi outro economista, Stephen Koukoulas, assessor do primeiro-ministro da Austrália. Acusou o analista do RBS de esperteza:

Diga-se de passagem, a economia da Austrália enfrenta problemas semelhantes ao do Brasil, pois também baseou seu crescimento econômico dos últimos anos nas exportações de ferro, carvão e gás para a China. É quase a metade de tudo o que vende ao exterior.

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O país tem melhor situação que a nossa porque, além de não ser assolado pela gatunagem desenfreada, seus níveis de educação são mais elevados. Alguns maldosos dirão que Koukoulas tomou aulas particulares de economia e finanças com o ex-presidente Lula, cuja proverbial lucidez foi por demais comprovada na famosa “Marolinha” de 2008. O aprendizado inclui superstição (não faz onda pra não acontecer) e difamação:

“Roberts ganhou um monte de cobertura para si e para o seu negócio. Se foi esse o objetivo, obteve grande sucesso”, escreveu em seu blog, como se pode ler em Wealth Manager ( http://bit.ly/1Q0zeAZ)

Koukoulas foi mais adiante: criou uma lista com vários investimentos que considera seguros e desafiou o colega para uma aposta: Roberts escolhe seis dos investimentos; se algum deles não der lucro, ganha 10 mil dólares. Do contrário, ele lhe paga a quantia.

Os investimentos listados incluem títulos das bolsas dos Estados Unidos, Brasil. Japão, China, Reino Unido e Austrália; ferro, cobre e petróleo; e imóveis nos Estados Unidos. Alguns tópicos indicados por Koukoulas já estão dançando na corda bamba, notadamente o petróleo e a economia brasileira.

Ninguém sabe quem vai ganhar a aposta, mas as previsões pessimistas se baseiam na queda acentuada da Bolsa da China nas últimas semanas. As ações tinham aumentado 150% no último ano e houve até quem se endividasse para comprá-las, sonhando em fazer fortuna com rapidez. Quando surgiram os sinais de desaceleração da economia chinesa, as ações despencaram, consumindo a valorização anterior. A isso, soma-se uma bolha idêntica a dos norte-americanos em 2008. Os chineses também inflaram o setor imobiliário.

Há muito anos, no tempo em que Pequim ficava “não-sei-onde”, o teatrólogo brasileiro Pedro Bloch escreveu a peça “Morre um gato na China”, na qual dizia que a humanidade só resolveria seus dilemas existenciais quando se comovesse com a morte até de um gato na China, lá no “outro lado do mundo”. Passado mais de 50 anos, não parece que a humanidade leve muito em conta a morte de gatos ou de seres humanos em qualquer parte do mundo, mas a queda das ações lhe provoca arrepios intensos como se fosse atacada de febre maligna.

O que vai acontecer? Milagres existem, mas o petróleo, particularmente não oferece perspectivas animadoras. A derrubada dos preços, de mais de 100 dólares para 30 dólares o barril, começou quando a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), por proposta da Arábia Saudita, resolveu baratear os preços para tornar inviável a exploração do xisto betuminoso que começou nos Estados Unidos e hoje também tomou corpo na Inglaterra.

O tiro saiu pela culatra. Não tornou inviável o xisto betuminoso e a desaceleração da economia chinesa e de países dela dependentes (entre eles. o Brasil e a Venezuela), afundou ainda mais os preços. Como não há sinais de recuperação à vista, veio a previsão da queda para 16 dólares o barril. Quem quiser se aprofundar neste item em particular, pode começar pela revista Nikkei Asian (http://s.nikkei.com/1URSQIF)

Já o caso do Brasil, preparem-se para ver mais do mesmo: em entrevista à Folha da de São Paulo, domingo passado (http://bit.ly/1n6gkQ6), o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, repetiu o velho blá-blá-blá tipo “fiofó-da-galinha”: “aumentar a previsibilidade, sobretudo a fiscal., estimular a recuperação do investimento privado, chegar à meta neste final de ano”, naturalmente contando com a volta da CPMF e pedalando fundos do Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES e FGTS.

Que Deus nos acuda.