Brasil de Machado a Lula

“A confusão era geral.”

Além de grande escritor, Machado de Assis terá sido profeta, a antecipar com a frase simples, escrita em 1899, este agitado Brasil de 2016?

No romance “Dom Casmurro”, Machado conta do velório em que Bentinho subitamente desconfia que a mulher, Capitu, era tão viúva quanto a própria viúva do defunto que morrera afogado. Não por lágrimas ou desesperos, mas por um certo tom de olhar daqueles olhos “grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã”.

Dom Casmurro Amostra

Neste momento de grandes delações nem todas honestas e de indignações nem todas sinceras, o Brasil é este velório de Machado de Assis, com um defunto afogado em maluquices e corrupção – o Governo Dilma.  Mas, ao contrário do romance, Lula, o “segundo” viúvo, resolveu se assumir como titular, ocupando teoricamente a Casa Civil para escapar do juiz Sérgio Moro, na prática roubando da viúva de verdade o resquício de dignidade política que lhe restava. Dilma é hoje um espectro, vagueando sem rumo pelo Palácio do Planalto.

Se no romance de Machado o leitor jamais fica sabendo se Capitu foi ou não adúltera, no velório do Governo Dilma o povo brasileiro saberá agora se foi ou não marido enganado desde 2003, quando se instalou no Poder a caterva que demoliu o país.

A ascensão de Lula ao Planalto nas circunstâncias atuais, põe em risco as instituições da República. Lula passou mais de ano depreciando sua sucessora e recusando a integrar o Governo que ele próprio elegera, para salvá-lo do naufrágio, em última análise consequência dos malfeitos iniciados em seus dois mandatos. Claramente com a intenção de mostrar que Dilma não correspondera à sua confiança.

De repente, ao se ver acossado por investigações criminais, ele refugia-se em um ministério, para escapar de investigações que já começavam a comprometê-lo, como se dissesse à Polícia Federal e à Justiça Federal de Primeira Instância que tem meninos de recado que o tratarão melhor no Supremo Tribunal Federal. É o atentado mais grave cometido contra a democracia brasileira desde 1988 pela tentativa de desmoralizar o Judiciário, um dos poderes basilares da República.

O que vai acontecer daqui por diante?

A falta de respostas concretas traz de volta o nosso velho e amado Machado de Assis, apenas com atualização do verbo: “A confusão é geral”.