A isca no anzol

A sessão da Comissão Especial da Câmara Federal, que aprovou o relatório, recomendando o impeachment da Presidente da República, não foi um espetáculo dignificante.

impeachment-600x393

Tanta vulgaridade, tanta demagogia de parte a parte fazem pensar: se os militantes da política brasileira fossem postos em fila, confrontados uns diante dos outros, os “a favor” de um lado, os “contra” do outro, ou vice-versa, os “da esquerda”, os “da direita” ou de que diabo fossem, todos seriam a imagem invertida, uns dos outros, como se estivessem diante de um espelho

Na democracia, cabe tudo. O preocupante, porém, o que causa indignação é que ninguém se pergunta o que é certo e o que é errado, o que se faz ou o que não se faz em matéria de decência e de moralidade. Todos ficam bailando em torno do que é legal ou ilegal, servindo-se da lei apenas para seus propósitos, como se a Lei fosse um deus pagão, devorador de consciências, a quem a hipocrisia sacrifica a virgem chamada verdade.

Enquanto isso, o país se retorce em uma crise da qual não se vê saída. A Presidente Dilma Rousseff, ontem, fez um pronunciamento patético: se sobreviver ao impeachment, vai propor um pacto nacional. Falta a este pronunciamento a confiança que se exige de qualquer promessa. A arrogância tem sido a marca registrada do PT em qualquer parcela de poder que lhe foi dada a exercer, desde a simples presença em um conselho comunitário à Presidência da República, passando por invasões de terras, turbulências urbanas, liderança de entidades de classe, o que for.

Enfim, a proposta não consegue ultrapassar o limite das palavras. Se palavras decidissem qualquer coisa, a esquerda já teria transformado este velho e atormentado mundo no paraíso que a Bíblia diz ter existido e que todos perdemos por rigor excessivo do dono de um pomar. Aquela história de Adão, Eva, cobra, maçã, por demais sabida de todos

Como são as ações que constroem ou destroem, apesar do palavrório, por onde a esquerda passa, ela sai com os bolsos cheios e deixa as finanças vazias.

Perdão, acho que me excedi. Não é a esquerda, são os se dizentes esquerdistas. Não se pode confundir a utopia, o farol que ilumina o caminho do ser humano na busca de sua felicidade, com a isca do anzol que patifes consumados lançam para pescar militantes e fortalecer seu projeto de poder.

A cartola de Lula

Não vou escrever o nome do ex-presidente Lula pela ortografia etimológica, a que aprendi quando me alfabetizei, para que os maldosos que sempre estão de plantão não me atribuam segundas intenções – Luiz Ignacio. Mas tenho de tomar uma decisão corajosa e enfrentar esta horda maledicente e acrescentar o título de sábio – o Sábio Lula – curvando-me à profundidade da filosofia dita chinesa que ensina: “Verdadeiro sábio é o sábio que sabe que nada sabe”.

O Sábio Lula nos tem dado provas robustas da sua sabedoria. Não só quando admite que nada sabe do mensalão e do petrolão, mas também em outras ocasiões como aquela, da inauguração do parque eólico de Osório, aqui no Rio Grande do Sul, em 19 de abril de 2006: “Eu pensei que vento só servia para empinar pipa, nunca achei que dava para fazer energia com ele”.

Agora, o Sábio Lula nos dá mais uma prova de sua magnifica sapiência. Segundo o jornal “O Estado de São Paulo” (http://bit.ly/1YEdylv), ele quer que a presidente Dilma anuncie, logo nos primeiros dias de janeiro, ”medidas concretas que sinalizem mudanças na política econômica rumo à retomada do desenvolvimento”.

O fraseado é muito bonito e tem semelhança com aquele discurso de mágico que tira coelho de cartola. Só tem uma diferença: na mágica de palco, o coelho já estava dentro da cartola. Na mágica do Governo Dilma, os coelhos foram todos surrupiados, as cartolas estão vazias e não há mágica possível. Como Lula é sábio, ele não sabe disso.

Um dos muitos exemplos foi noticiado pela Folha de São Paulo (http://bit.ly/1OIv0eb). Em 27 de março deste ano, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy questionou “um ponto da contabilidade que serviu de base para grande parte das políticas desenvolvimentistas do governo Dilma Rousseff” e “levou a um processo de ajuste que envolveu o BC e obrigou quatro bancos estatais (o próprio BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco da Amazônia) a corrigirem informações sobre a contabilidade desde o fim de 2013.”

dilma-e-lula-rindo

O erro, se é que pode ser considerado erro quando se transforma dívida em crédito e se tem em mente as pedaladas do Governo Dilma, fez com que o patrimônio do BNDES, propalado, até o fim da campanha eleitoral de 2014 como sendo de 66 bilhões e 300 milhões de reais, se reduzisse em março de 2015 a 30 bilhões e 700 milhões – menos da metade. Se somarmos os 35 bilhões e 900 milhões falsamente atribuídos à Caixa Econômica Federal, os 8 bilhões e 100 milhões ao Banco do Brasil e os 982 milhões ao Banco da Amazônia, só aí temos o rombo de 80 bilhões e 582 milhões de reais.

Este é apenas um pormenor da imensa fraude, de cuja dimensão ainda não se consegue ter ideia mesmo aproximada. Desde os tempos do Lula e do mago Guido Mantega com sua política desenvolvimentista que afundou o Brasil, o próprio BNDE, banco de investimentos, em vez de investir os lucros, tem contribuído com seus dividendos para tapar buracos do orçamento. Desde 2008, a “contribuição” somou 63 bilhões de reais. Para fechar o rombo de 2015, o BNDES está “antecipando” ao Governo Dilma nada menos que a “insignificância de 4 bilhões e 800 milhões.

Pois aí é que está. Lula não pode exigir esta mágica do Governo Dilma. Ele sabe que nessa cartola só tem é dente de coelho.