A vovó de si mesma

 

O bacharel Ricardo Lewandowski, ministro do Supremo Tribunal Federal, está exposto nesse pelourinho implacável chamado opinião pública. Dali seu nome sairá para a história, etiquetado em pelo menos duas das muitas gavetas onde se arquivam as lembranças ingratas à Nação: a do mensalão e a do fatiamento do impeachment de Dilma Roussef. Ainda deve acrescentar alguma coisa à sua folha de serviços, pois deixando a presidência do Colegiado, passa a integrar a 2ª Turma que julgará os denunciados pela Operação Lava-Jato.

Como disse Fernão Lara Mesquita em artigo em “O Estado de São Paulo (http://bit.ly/2d8tFmY), analisando o episódio do impeachment de Dilma Rousseff, Lewandowski “deu um tirombaço abaixo da linha d’água do “seu” próprio STF, guardião da Constituição, colocando-a – e a ele até segunda ordem – abaixo do regimento interno do Senado de Renan Calheiros(…)”.

Sem considerações de ordem gramatical, apenas pelo mérito, Lewandowski criou um enigma indecifrável nos conteúdos mais rudimentares do Direito Constitucional: o de como uma Constituição pode se subordinar a um regimento gerado em seu próprio ventre. Seria admitir que a mãe se tornasse filha da filha e, portanto, neta de si mesma.

Enfim, eis uma bela oportunidade para que o protagonista Luiz Inácio Lula da Silva crie uma de suas frases imortais: “Nunca, na história deste país (e também na do mundo civilizado) inovou-se tanto!”

Confesso com toda a franqueza que não sei bem o que dizer a respeito de todas essas coisas. Apenas estive fazendo cálculos: chega a 10 bilhões de reais a soma do que a Receita Federal está cobrando por sonegação de impostos, praticada por parte dos envolvidos na corrupção da Lava-Jato. Estamos falando da sonegação de parte dos gatunos, não da roubalheira praticada por todos, que é gigantesca.

Pois, peguem lápis e papel: se alguém conseguisse gastar um real por segundo – estou falando “por segundo”, não por minuto” – levaria 317 anos para se consumir com a dinheirama só da sonegação.

Eis algo que eu haveria de considerar se me coubesse o arbítrio de revogar a hierarquia da Constituição.

A República do Pampa

Na falta de melhor assunto, naqueles domingos chuvosos em que a gente não encontra nada para pensar ou fazer, alguém traz de volta, com jeito de novo, o velho delírio da República do Pampa. Seria um novo país, formado pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Os “gabriéis” da nova “anunciação” não esclarecem se proclamarão a dita República na marra, se os catarinenses e paranaenses não concordarem. Se na falta de arcabuzes, o novo exército será equipado com bodoques, naturalmente depois de longo e construtivo debate se é bodoque, funda, atiradeira ou estilingue, isso depois de decidir qual o nome politicamente correto.

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Que desperdício!

As malcriações no trato com os colegas mostram que o problema do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) é ser o menino prodígio mais antigo do Brasil.

Para quem é destituído de equilíbrio emocional, é difícil deixar de ser menino. E quando falta talento, é mais difícil ainda continuar a ser prodígio.

Tanta energia juvenil, tanto idealismo, tanto fervor legalista, se aplicados ao combate à corrupção, teriam poupado ao Brasil o mensalão, o petrolão, além de outros anexos imobiliários e agro-recreativos.

Que pena.

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Certas senhoras…

Assisti nesta sexta-feira, na TV Senado, a sessão da Comissão Especial de Impeachment em que o Governo da sra. Dilma Rousseff apresentou sua defesa preliminar.

Mais uma vez, o advogado geral da União, José Eduardo Cardoso se destacou pela tática de defender, acusando os adversários, em estilo que chamo de “Conversa de Sogra”.

Conto-lhes uma pequena história, que li não me lembro onde, e vocês dirão se estou certo ou errado.

Dois meses depois que certa senhora havia casado sua filha e seu filho em uma mesma e suntuosa cerimônia que foi o acontecimento social da cidade, uma amiga íntima lhe telefona para saber da vida dos pombinhos.

“Ah! A Mimi tirou a sorte grande”, festejou entusiasmada a certa senhora. “O marido é uma bênção de Deus. Não reclama porque ela dorme sempre até o meio-dia. Ele lhe leva o almoço na cama, para que ela possa se levantar.  Contratou duas empregadas pro diário e mais duas pros domingos, pra que ela não mova uma palha dentro de casa. Gosta que ela vá ao salão de beleza todas as tardes para fazer o penteado. Fica orgulhoso porque ela não repete um vestido, mesmo que seja só pra andar em casa. E todos os dias lhe traz uma joia de presente. É ou não é uma bênção de Deus !?”

– O Senhor seja louvado! E o teu filho?

“Coitadinho! Cacá não teve sorte”, lamentou a certa senhora. “A mulher é maldição do demônio. É uma preguiçosa.  Dorme sempre até o meio-dia. Ele leva o almoço na cama, para que ela possa se levantar. O coitadinho teve de contratar duas empregadas para o diário e duas para os domingos porque ela não move uma palha dentro de casa. Vai todas as tardes se pentear no salão de beleza. Vestido só usa uma vez, mesmo que seja só pra andar em casa. E todos os dias ele tem que lhe trazer uma joia de presente. É ou não é uma maldição do demônio ?!”

Ah! Certas senhoras…

A isca no anzol

A sessão da Comissão Especial da Câmara Federal, que aprovou o relatório, recomendando o impeachment da Presidente da República, não foi um espetáculo dignificante.

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Tanta vulgaridade, tanta demagogia de parte a parte fazem pensar: se os militantes da política brasileira fossem postos em fila, confrontados uns diante dos outros, os “a favor” de um lado, os “contra” do outro, ou vice-versa, os “da esquerda”, os “da direita” ou de que diabo fossem, todos seriam a imagem invertida, uns dos outros, como se estivessem diante de um espelho

Na democracia, cabe tudo. O preocupante, porém, o que causa indignação é que ninguém se pergunta o que é certo e o que é errado, o que se faz ou o que não se faz em matéria de decência e de moralidade. Todos ficam bailando em torno do que é legal ou ilegal, servindo-se da lei apenas para seus propósitos, como se a Lei fosse um deus pagão, devorador de consciências, a quem a hipocrisia sacrifica a virgem chamada verdade.

Enquanto isso, o país se retorce em uma crise da qual não se vê saída. A Presidente Dilma Rousseff, ontem, fez um pronunciamento patético: se sobreviver ao impeachment, vai propor um pacto nacional. Falta a este pronunciamento a confiança que se exige de qualquer promessa. A arrogância tem sido a marca registrada do PT em qualquer parcela de poder que lhe foi dada a exercer, desde a simples presença em um conselho comunitário à Presidência da República, passando por invasões de terras, turbulências urbanas, liderança de entidades de classe, o que for.

Enfim, a proposta não consegue ultrapassar o limite das palavras. Se palavras decidissem qualquer coisa, a esquerda já teria transformado este velho e atormentado mundo no paraíso que a Bíblia diz ter existido e que todos perdemos por rigor excessivo do dono de um pomar. Aquela história de Adão, Eva, cobra, maçã, por demais sabida de todos

Como são as ações que constroem ou destroem, apesar do palavrório, por onde a esquerda passa, ela sai com os bolsos cheios e deixa as finanças vazias.

Perdão, acho que me excedi. Não é a esquerda, são os se dizentes esquerdistas. Não se pode confundir a utopia, o farol que ilumina o caminho do ser humano na busca de sua felicidade, com a isca do anzol que patifes consumados lançam para pescar militantes e fortalecer seu projeto de poder.

O espírito da Lava Jato

Pois baixou o Caboclo Ventania no Ministério da Justiça, ligando o ventilador no momento em que o Governo está em um labirinto estreito, sem ter para onde se voltar e encontrar uma saída. O novo titular, Eugênio Aragão faz ameaças à Polícia Federal, ao Judiciário e à própria Operação Lava Jato.

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Aragão é antigo no Ministério Público, do tempo em que promotor também podia advogar e todos achavam isso muito natural. As coisas mudaram. O sucesso da Operação Lava Jato se deve a que, afora os protagonistas e agregados, todo o resto da população acha que lugar de gatuno é na cadeia.

Parece que o novo titular da Justiça trouxe do passado remoto a ideologia do Brasil Colônia que colocava instituições públicas – a Polícia e o próprio Judiciário – a serviço do poder e não da defesa da sociedade. Em entrevista à Folha de São Paulo, Aragão cunhou esta joia: “Se a gente tolera que o grandalhão vai para cadeia enquanto não resolve abrir a boca, então o pequeno pode ir para o pau de arara”.

Alguém devia informar ao novo ministro da Justiça que, em nome do povo brasileiro, o Judiciário e a Polícia estão tentando pôr o grandalhão na cadeia para livrar o pequeno do pau de arara. É este o espírito da Operação Lava Jato.

Brasil de Machado a Lula

“A confusão era geral.”

Além de grande escritor, Machado de Assis terá sido profeta, a antecipar com a frase simples, escrita em 1899, este agitado Brasil de 2016?

No romance “Dom Casmurro”, Machado conta do velório em que Bentinho subitamente desconfia que a mulher, Capitu, era tão viúva quanto a própria viúva do defunto que morrera afogado. Não por lágrimas ou desesperos, mas por um certo tom de olhar daqueles olhos “grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã”.

Dom Casmurro Amostra

Neste momento de grandes delações nem todas honestas e de indignações nem todas sinceras, o Brasil é este velório de Machado de Assis, com um defunto afogado em maluquices e corrupção – o Governo Dilma.  Mas, ao contrário do romance, Lula, o “segundo” viúvo, resolveu se assumir como titular, ocupando teoricamente a Casa Civil para escapar do juiz Sérgio Moro, na prática roubando da viúva de verdade o resquício de dignidade política que lhe restava. Dilma é hoje um espectro, vagueando sem rumo pelo Palácio do Planalto.

Se no romance de Machado o leitor jamais fica sabendo se Capitu foi ou não adúltera, no velório do Governo Dilma o povo brasileiro saberá agora se foi ou não marido enganado desde 2003, quando se instalou no Poder a caterva que demoliu o país.

A ascensão de Lula ao Planalto nas circunstâncias atuais, põe em risco as instituições da República. Lula passou mais de ano depreciando sua sucessora e recusando a integrar o Governo que ele próprio elegera, para salvá-lo do naufrágio, em última análise consequência dos malfeitos iniciados em seus dois mandatos. Claramente com a intenção de mostrar que Dilma não correspondera à sua confiança.

De repente, ao se ver acossado por investigações criminais, ele refugia-se em um ministério, para escapar de investigações que já começavam a comprometê-lo, como se dissesse à Polícia Federal e à Justiça Federal de Primeira Instância que tem meninos de recado que o tratarão melhor no Supremo Tribunal Federal. É o atentado mais grave cometido contra a democracia brasileira desde 1988 pela tentativa de desmoralizar o Judiciário, um dos poderes basilares da República.

O que vai acontecer daqui por diante?

A falta de respostas concretas traz de volta o nosso velho e amado Machado de Assis, apenas com atualização do verbo: “A confusão é geral”.

Tarso Genro e o Holocausto

À primeira vista, pensei que se tratasse de uma dessas fraudes que circulam pela Internet, quando fanáticos de uma causa desejam atribuir aos fanáticos de outra causa injúrias que não disseram e delitos que não cometeram. Havia mais: o estilo é o homem. A construção da frase, na forma e na gramática, é absolutamente estranha ao estilo e à gramática do ex-governador Tarso Genro.
Conferi no twiter, em #tarsogenro. Lá estava: “A mídia faz de Lula o judeu da década, como os nazis fizeram deles e comunas os alvos do seu ódio à democracia social. É só ler Weimar…”
Continuo não acreditando que o sr. Tarso Genro tenha escrito isso.

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Suponho, até prova em contrário, que se trate de algo também comum na Internet, de correligionários expressarem admiração por líderes políticos, assumindo o papel de dublês para suprir de conteúdos o twiter e o facebook, ou criando identidades “cover”, como Dilma Bolada, para promover apoio a seus líderes.
Fico pasmado que uma pessoa intelectualmente bem dotada e culturalmente bem suprida como o ex-governador possa cometer tantos equívocos em um simples parágrafo. Mas, que o tenha feito. É seu direito à livre expressão do pensamento. Nada que não seja de uma autêntica democracia. Apenas contesto a afirmação.
É indefensável a comparação entre os dissabores de Lula, de prestar esclarecimentos à Polícia Federal sobre corrupção em negócios públicos, durante a sua Presidência e a de sua sucessora, e o Holocausto, o extermínio em massa de judeus, planejado pelos nazistas, praticado sob nenhuma acusação, nenhum inquérito, nenhum processo, nenhum direito de defesa, nenhum julgamento por um juiz regular – apenas porque eram judeus. Lula não foi chamado à Polícia Federal por ser nordestino, ou católico romano, ou ter origem pobre. A ele é assegurado total e irrestrito direito de defesa, é assistido por advogados entre os mais bem pagos do país e não está sendo julgado, e nem o será se os indícios mostrarem, sem qualquer dúvida, que teve seu nome envolvido por quem lhe traiu a confiança. Esta, pelo menos, parece ser a linha da sua defesa.
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Os nazistas não investigavam: simplesmente prendiam e matavam os judeus por serem judeus. Nos autos do Tribunal de Nuremberg (Nazi Conspiration and Aggression, Volume V, páginas 696 a 699) há o depoimento de um engenheiro alemão, Hermann Graebe, relatando o massacre de cinco mil judeus, perpetrado pelos homens da SS, para “limpar” Dubnov, uma cidade ucraniana.
Graebe era engenheiro de profissão e gerenciava uma firma alemã de construções na Ucrânia. Em 5 de outubro de 1942, ele e seu capataz estavam em Dubnow e testemunharam a execução de vítimas. Eram “homens mulheres e crianças de todas as idades” (palavras textuais de Graebe) que desciam dos caminhões que as traziam diretamente para as valas onde seriam fuziladas e enterradas. Forçados a tirar toda a roupa sob a vigilância de um homem da SS, empunhando um açoite, eram obrigados a separar peça por peça em montes separados – sapatos, calças, casacos, vestidos
“Sem gritar ou chorar”, é Graebe quem conta, “despiam-se todos, reuniam-se em grupos de família, beijavam-se uns aos outros, despediam-se e aguardavam o sinal de outro homem da SS, também empunhando um açoite. Durante os 15 minutos que permaneci nas proximidades não os ouvi se queixando ou pedindo misericórdia.
“Uma velha senhora, de cabelos brancos como a neve, segurava uma bebê de um ano e lhe cantava e lhe fazia cócegas. A criança se divertia, deliciada. Os pais olhavam-na com lágrimas nos olhos. O pai segurava a mão de um menino de 10 anos e lhe falava carinhosamente. O menino esforçava-se para não chorar. O pai apontou para o céu e afagou-lhe a cabeça, parecendo explicar-lhe alguma coisa. (…) Olhei para o homem que atirava. Era também da SS. Sentando na beira da vala, balançava as pernas. Tinha um fuzil metralhadora no colo e fumava um cigarro. ”
Não sei o que dizer a quem compara duas situações tão diferentes. Deixo que a sua consciência encontre a verdadeira resposta.
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O Pastelão de Dona Dilma

Pois a senhora Dona Dilma Rousseff, presidente desta agitada República, de repente convoca o adormecido Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, mais conhecido por Conselhão… para quê?

A se julgar pelo astro principal, o ator Wagner Moura, recém nomeado, seu sucesso em “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2” deve ter inspirado a Presidente a produzir o novo filme da série, o “Tropa de Otários”, comédia-pastelão, pois nem ela acredita no Conselhão. Foi a própria dona Dilma quem o desativou, faz ano e meio. Dele já fizeram parte membros relevantes, como Marcelo Odebrecht e José Carlos Bumlai, substituídos porque estão cadeia, fazendo companhia a outros dois notáveis ex-integrantes, José Dirceu e João Vaccari Neto, também alijados por motivos idênticos

Admira é que pessoas respeitáveis se prestem ao papel de coadjuvantes no pastelão de Dona Dilma. Sabem que este governo de surdos ideológicos nada acatará do que propuserem, e nada do que resolverem terá qualquer sentido prático se o Congresso não aprovar. Não serão nada mais do que plateia para ouvir a velha lengalenga da “nova matriz econômica” que arruinou o país e que o ministro Nelson Barbosa vai tentar re-impingir, ao anunciar nova e mirabolante pedalada de 50 bilhões de reais, tungados do BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e também do FGTS. Não bastasse a roubalheira que já arruinou o Postalis, (Previdência dos Correios, o Petrus (Petrobrás), o Funcef (Caixa Econômica Federal) e o Fapes (BNDES).

Pastelão 02Até mesmo a mirabolância dos 50 bilhões para estimular a economia através de empréstimos consignados é jogo de cena. O que Dona Dilma vai propor no seu pastelão é que os empresários e representantes de movimentos sociais aprovem a volta da CPMF, para que ela possa pressionar o Congresso.

Sem a volta da CPMF, Dona Dilma não se mantém na Presidência. Ela não tem como “cortar gastos”, melhor dito, secar as tetas suculentas onde mamam a fartar os “aliados” que a apoiam, mas guardam o impeachment como carta na manga. Basta que ela se atreva.

A volta da Guerra Fria

Seres humanos superlotando barcos frágeis e se afogando nas águas do Mediterrâneo, o cadáver do menininho sírio em uma praia deserta –  são imagens que jamais se apagarão da nossa memória. Nem a interrogação: como isso pode acontecer em uma sociedade que se diz civilizada?

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Multidões invadindo a Europa, com destino certo, aparentemente os países mais prósperos da União Europeia, mas com toda certeza membros da Otan, a organização de defesa do Ocidente, também despertam uma indagação: como, de repente, do nada, surge essa imensa massa de refugiados, marchando organizada, com apoio logístico (transporte, alimentação, repouso) e consegue se deslocar a tão grandes distâncias?

Pois a resposta desta pergunta está sendo procurada pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de alguns países europeus, conforme se pode ler em jornais ingleses. The Sunday Telegraph noticia que teve acesso a documentação identificando operações de influência russa na França, Holanda, Hungria, na Áustria e, principalmente na República Checa, que os próprios russos definem como porta escancarada de acesso aos países da União Europeia.

Por enquanto, são apenas suspeitas que refletem o temor de que a guerra fria esteja de volta.  A fonte que originou a informação a The Sunday Telegraph é ligada ao governo inglês e se referiu aos recentes acontecimentos que agitam a Europa, “com a visível intromissão da Rússia em escala maior do que se supunha antes”.

O Governo inglês está particularmente preocupado com o que considera interferência sem precedentes nos assuntos internos da Grã-Bretanha. No ano passado, durante a campanha para eleger o líder do Partido Trabalhista, o canal de televisão Russia Today, financiado pelo Kremlin, apoiou abertamente a campanha de Jeremy Corbin, com ampla cobertura de seus comícios, mas sem proporcionar tratamento igual a candidatos rivais.

Quando Corbyn se elegeu, em desrespeito sem precedentes às regras da convivência diplomática, o próprio embaixador russo em Londres, Alexander Yakovenko, festejou ostensivamente sua vitória como um “avanço radical”. Corbyn defende as mesmas teses que a esquerda propaga pelo mundo afora e que coincidem sempre com os interesses da Rússia: o desmantelamento da União Europeia e da OTAN, do sistema de defesa antimísseis e por aí afora. Ainda antes, em 2014, Rússia Today apoiou o separatismo no referendo escocês e não aceitou o resultado, fazendo acusações de fraude na apuração dos votos.

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Intromissão tão escancarada nos assuntos internos do pais levou o Governo inglês a expulsar quatro diplomatas da Embaixada Russa em Londres, recusando prorrogar seus vistos. Entre eles, Sergey Nalobin que anteriormente estivera atuando na Venezuela e agora terá funções no Ministério das Relações Exteriores em Moscou.

Por sua vez, os serviços de inteligência norte-americanos, estão investigando a interferência russa em partidos políticos europeus. Há indícios de financiamento clandestino a partidos europeus, até mesmo a grupos de extrema direita, como Jobbik, na Hungria, Chrym Avguê (Aurora Dourada) na Grécia, a Liga do Norte da Itália e a Frente Nacional da França que recebeu empréstimo de 9 milhões de euros de um banco russo em 2014.

A preocupação norte-americana diz respeito ao quanto as ações russas possam desestabilizar a União Europeia, enfraquecer a Otan e, principalmente, bloquear programas de defesa antimísseis dos Estados Unidos, a única contenção ao poderio militar russo. Se isso acontecer, o mundo retorna ao pesadelo da Guerra Freia, do qual acordou com a extinção da União Soviética.