A volta da Guerra Fria

Seres humanos superlotando barcos frágeis e se afogando nas águas do Mediterrâneo, o cadáver do menininho sírio em uma praia deserta –  são imagens que jamais se apagarão da nossa memória. Nem a interrogação: como isso pode acontecer em uma sociedade que se diz civilizada?

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Multidões invadindo a Europa, com destino certo, aparentemente os países mais prósperos da União Europeia, mas com toda certeza membros da Otan, a organização de defesa do Ocidente, também despertam uma indagação: como, de repente, do nada, surge essa imensa massa de refugiados, marchando organizada, com apoio logístico (transporte, alimentação, repouso) e consegue se deslocar a tão grandes distâncias?

Pois a resposta desta pergunta está sendo procurada pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e de alguns países europeus, conforme se pode ler em jornais ingleses. The Sunday Telegraph noticia que teve acesso a documentação identificando operações de influência russa na França, Holanda, Hungria, na Áustria e, principalmente na República Checa, que os próprios russos definem como porta escancarada de acesso aos países da União Europeia.

Por enquanto, são apenas suspeitas que refletem o temor de que a guerra fria esteja de volta.  A fonte que originou a informação a The Sunday Telegraph é ligada ao governo inglês e se referiu aos recentes acontecimentos que agitam a Europa, “com a visível intromissão da Rússia em escala maior do que se supunha antes”.

O Governo inglês está particularmente preocupado com o que considera interferência sem precedentes nos assuntos internos da Grã-Bretanha. No ano passado, durante a campanha para eleger o líder do Partido Trabalhista, o canal de televisão Russia Today, financiado pelo Kremlin, apoiou abertamente a campanha de Jeremy Corbin, com ampla cobertura de seus comícios, mas sem proporcionar tratamento igual a candidatos rivais.

Quando Corbyn se elegeu, em desrespeito sem precedentes às regras da convivência diplomática, o próprio embaixador russo em Londres, Alexander Yakovenko, festejou ostensivamente sua vitória como um “avanço radical”. Corbyn defende as mesmas teses que a esquerda propaga pelo mundo afora e que coincidem sempre com os interesses da Rússia: o desmantelamento da União Europeia e da OTAN, do sistema de defesa antimísseis e por aí afora. Ainda antes, em 2014, Rússia Today apoiou o separatismo no referendo escocês e não aceitou o resultado, fazendo acusações de fraude na apuração dos votos.

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Intromissão tão escancarada nos assuntos internos do pais levou o Governo inglês a expulsar quatro diplomatas da Embaixada Russa em Londres, recusando prorrogar seus vistos. Entre eles, Sergey Nalobin que anteriormente estivera atuando na Venezuela e agora terá funções no Ministério das Relações Exteriores em Moscou.

Por sua vez, os serviços de inteligência norte-americanos, estão investigando a interferência russa em partidos políticos europeus. Há indícios de financiamento clandestino a partidos europeus, até mesmo a grupos de extrema direita, como Jobbik, na Hungria, Chrym Avguê (Aurora Dourada) na Grécia, a Liga do Norte da Itália e a Frente Nacional da França que recebeu empréstimo de 9 milhões de euros de um banco russo em 2014.

A preocupação norte-americana diz respeito ao quanto as ações russas possam desestabilizar a União Europeia, enfraquecer a Otan e, principalmente, bloquear programas de defesa antimísseis dos Estados Unidos, a única contenção ao poderio militar russo. Se isso acontecer, o mundo retorna ao pesadelo da Guerra Freia, do qual acordou com a extinção da União Soviética.

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