O Uber passado a limpo

Nunca usei o Uber e não tenho ideia se usarei o serviço agora ou mais adiante. Faz anos que ocupo táxis convencionais. Com o correr do tempo acabei me afreguesando a motoristas honestos, prestativos e bem-educados, dos quais fiz uma lista. Também sou cliente do 99 Táxis, e desse atendimento igual não me queixo.

Contudo, se há necessidade de alinhar três adjetivos para definir o que exijo e prefiro ao utilizar o serviço, e se disponho de uma lista de motoristas preferenciais, não preciso acrescentar que utilizar táxis no Brasil é, algumas vezes, uma aventura constrangedora quando não temerária. Então, a alternativa do Uber também é bem-vinda.

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Não que a polêmica seja exclusividade brasileira. Serviços como o do Uber (já há outros similares) estão na ordem do dia pelo mundo afora. Discute-se Uber tanto em Londres com sua exemplar frota de taxistas como em cidades chinesas com seu trânsito arrepiante. A violência contra motoristas e passageiros, esta sim, só explode em países onde a demagogia e a corrupção sequestraram o estado e decretaram que a impunidade é politicamente correta.

Curiosamente, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) promete, até junho, relatório sobre “impactos e desafios produzidos por modelos de negócio baseados em tecnologias que eliminam a intermediação”. Não sei se a notícia, publicada recentemente por alguns jornais, tem fundamento. Não dá para entender por que sobraria tempo e utilidade a uma organização mundial fazer relatórios sobre bate-bocas de taxistas inconformados. Se for sobre as mudanças que a Internet trouxe ao mundo, acho que o relatório já vem com alguns anos de atraso.

Na verdade, o que não consigo entender é a complacência de autoridades brasileiras com a reação selvagem de alguns desordeiros que infestam e desmoralizam o setor, contrastando com furibundas ameaças que fazem ao Uber, de confisco de propriedade privada e de multas estratosféricas sem previsão legal, no que se igualam todos, desordeiros e autoridades.

Vamos pôr os pontos nos “is”: se não tem pontos fixos se não pode apanhar passageiros na rua, o Uber nada tem a ver com táxis. Equipara-se, isso sim, às agências de locação de veículos, que existem em qualquer parte do mundo, Porto Alegre inclusive, com preço ajustado entre as partes, incluindo ou não motorista, conforme a desejo ou necessidade do usuário. Como tal deve ser registrado entre os contribuintes.

A aposta

A notícia de que analistas do RBS (Royal Bank of Scotland) temem nova crise mundial em 2016, acendeu uma polêmica. Andrew Roberts, um dos analistas do RBS, aconselhou seus clientes a se desfazerem de investimentos, renunciando a ganhos de capital para preservar o próprio capital. Quem não gostou da história foi outro economista, Stephen Koukoulas, assessor do primeiro-ministro da Austrália. Acusou o analista do RBS de esperteza:

Diga-se de passagem, a economia da Austrália enfrenta problemas semelhantes ao do Brasil, pois também baseou seu crescimento econômico dos últimos anos nas exportações de ferro, carvão e gás para a China. É quase a metade de tudo o que vende ao exterior.

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O país tem melhor situação que a nossa porque, além de não ser assolado pela gatunagem desenfreada, seus níveis de educação são mais elevados. Alguns maldosos dirão que Koukoulas tomou aulas particulares de economia e finanças com o ex-presidente Lula, cuja proverbial lucidez foi por demais comprovada na famosa “Marolinha” de 2008. O aprendizado inclui superstição (não faz onda pra não acontecer) e difamação:

“Roberts ganhou um monte de cobertura para si e para o seu negócio. Se foi esse o objetivo, obteve grande sucesso”, escreveu em seu blog, como se pode ler em Wealth Manager ( http://bit.ly/1Q0zeAZ)

Koukoulas foi mais adiante: criou uma lista com vários investimentos que considera seguros e desafiou o colega para uma aposta: Roberts escolhe seis dos investimentos; se algum deles não der lucro, ganha 10 mil dólares. Do contrário, ele lhe paga a quantia.

Os investimentos listados incluem títulos das bolsas dos Estados Unidos, Brasil. Japão, China, Reino Unido e Austrália; ferro, cobre e petróleo; e imóveis nos Estados Unidos. Alguns tópicos indicados por Koukoulas já estão dançando na corda bamba, notadamente o petróleo e a economia brasileira.

Ninguém sabe quem vai ganhar a aposta, mas as previsões pessimistas se baseiam na queda acentuada da Bolsa da China nas últimas semanas. As ações tinham aumentado 150% no último ano e houve até quem se endividasse para comprá-las, sonhando em fazer fortuna com rapidez. Quando surgiram os sinais de desaceleração da economia chinesa, as ações despencaram, consumindo a valorização anterior. A isso, soma-se uma bolha idêntica a dos norte-americanos em 2008. Os chineses também inflaram o setor imobiliário.

Há muito anos, no tempo em que Pequim ficava “não-sei-onde”, o teatrólogo brasileiro Pedro Bloch escreveu a peça “Morre um gato na China”, na qual dizia que a humanidade só resolveria seus dilemas existenciais quando se comovesse com a morte até de um gato na China, lá no “outro lado do mundo”. Passado mais de 50 anos, não parece que a humanidade leve muito em conta a morte de gatos ou de seres humanos em qualquer parte do mundo, mas a queda das ações lhe provoca arrepios intensos como se fosse atacada de febre maligna.

O que vai acontecer? Milagres existem, mas o petróleo, particularmente não oferece perspectivas animadoras. A derrubada dos preços, de mais de 100 dólares para 30 dólares o barril, começou quando a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), por proposta da Arábia Saudita, resolveu baratear os preços para tornar inviável a exploração do xisto betuminoso que começou nos Estados Unidos e hoje também tomou corpo na Inglaterra.

O tiro saiu pela culatra. Não tornou inviável o xisto betuminoso e a desaceleração da economia chinesa e de países dela dependentes (entre eles. o Brasil e a Venezuela), afundou ainda mais os preços. Como não há sinais de recuperação à vista, veio a previsão da queda para 16 dólares o barril. Quem quiser se aprofundar neste item em particular, pode começar pela revista Nikkei Asian (http://s.nikkei.com/1URSQIF)

Já o caso do Brasil, preparem-se para ver mais do mesmo: em entrevista à Folha da de São Paulo, domingo passado (http://bit.ly/1n6gkQ6), o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, repetiu o velho blá-blá-blá tipo “fiofó-da-galinha”: “aumentar a previsibilidade, sobretudo a fiscal., estimular a recuperação do investimento privado, chegar à meta neste final de ano”, naturalmente contando com a volta da CPMF e pedalando fundos do Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES e FGTS.

Que Deus nos acuda.

Às vésperas da tempestade

Vocês vão ler nos jornais e na Internet, daqui a pouco, advertência do RBS (Royal Bank of Scotland – Banco Real da Escócia) aos seus clientes, sobre a forte possibilidade de se reproduzir, nos próximos meses, uma crise idêntica de 2008, com forte baixa das ações da Bolsa e recessão nas principais economias mundiais.

A notícia foi publicada primeira pelo jornal britânico The Telegraph (http://bit.ly/1OmVylG) e a advertência está sendo levada em conta porque naquele mesmo ano de 2008, os profissionais do RBS foram os primeiros a alertar para o caos que se avizinhava. Naquela ocasião, o Governo Lula adotou o equivoco grosseiro da “nova matriz econômica”, em cuja criação estiveram envolvidos o ex-ministro Guido Mantega e também o atual titular do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.

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As previsões do RBS não são nada animadoras: as perdas das Bolsas podem chegar a 20 por cento, o preço das comodities deve desabar, inclusive o petróleo, caindo para meros 16 dólares o barril, o que significaria a ruína da economia de vários produtores do Oriente Médio e também da Rússia que já não anda lá muito bem das pernas.

As previsões do RBS se baseiam nas atribulações por que passa atualmente a economia chinesa, cujo “milagre” se baseou na expansão da dívida pública, mas se esgota sempre que se atinge o ponto de saturação e os investimentos começam a fugir do país. Aliás, não é nenhuma novidade no Brasil, onde a “acrobacia” foi tentada por Delfim Neto durante o regime militar e por Guido Mantega, a partir do segundo Governo Lula, com os resultados que todos sabemos..

O mais alarmante é que parece não termos aprendido a lição no Brasil. O Governo se nega a diminuir a gastança com que cavou o fundo buraco em que nos encontramos e que procura tapar com escorchantes aumentos de impostos, o que vai arruinar mais a economia já em frangalhos. Não satisfeito com isso, aceita examinar um plano da indústria automobilística para a “renovação da frota nacional de veículos”, como forma de estimular as vendas. O “plano” consiste em criar um “fundo” (mais dívidas, mais buraco) que compensaria e financiaria a troca de automóveis com mais de 15 anos de fabricação e caminhões com maio de 30 anos, além de reduzir de novo o respectivo IPI.

Há poucos dias o ministro-chefe da Casa Civil afirmou com todas as letras que o Governo não tem coelhos para tirar de cartolas. Mas não falou no plano nem o descartou com firmeza. O fato é que a indústria automobilística goza de muito prestígio, vamos dizer assim, com o ex-presidente Lula, tanto assim que nos últimos tempos ele e seu filho até têm falado disso à Polícia Federal, como personagens que são da Operação Zelotes.